Das Pessoas, Do Comportamento

INODORO – INSÍPIDO

Estava a pouco curtindo meu momento. Onde conseguia depois de um longo período, apreciar resquícios de sabor em minha refeição. Vivo na terra do inodoro e por consequência insípido. Identifico sabores amargos na maioria das vezes, doces muito doces, salgados muito salgados. Um paladar extremado. Mas hoje, apreciava uma refeição caseira saborosa, não sei dizer, se povoada pelas lembranças da infância, quando percebia sutilezas alimentícias, ou por uma falsa ideia dos gostos em si.

De repente, no meio de meu pleno exercício ao mais convidativo pecado capital – a gula, talvez o pecado mais inofensivo assumidamente mais praticado, porém, com certa culpa às vezes.  Um gole d’água, sim água , a que purifica, acabou com toda minha nostalgia ‘paladaresca’ resgatando-me da ínfima felicidade para a terra dos insípidos novamente. Assim sem mais nem menos. Terminei a refeição para baixo, na rotineira sensação de mascar pedaços de borracha. Da próxima vez, mesmo desidratando (não era o caso, mas sim hábito), não deixarei que um simples líquido acabe com a magia dos sabores novamente. :(

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Da Ficção

OH CAPTAIN! MY CAPTAIN!

Sou o capitão, sou o capitão do meu próprio destino.

Fumo três maços por dia, por dia, por dia.  Sou o capitão do meu próprio destino. Capitão, capitão!

E o chapéu? Alguém já tentou tirar dele? Já, mas ele sempre faz outros. É sua proteção. Quando a médica disse que ele não poderia usar tesouras ele reforçou o elástico com fita crepe. Deve ter pelo menos uns trinta chapéus diferentes dentro do quarto, feitos com recortes de revista, papéis coloridos. Só o elástico é o mesmo.

Ele fuma mesmo três maços por dia? Fuma. Um atrás do outro. Ele dorme com um cigarro apagado na boca. Por que? Ele diz que não pode perder tempo quando acorda. No começo, queria acender, mas hoje ele sabe das regras. Se acender um cigarro à noite vai perder os outros pela manhã.

Como se relaciona com os outros pacientes?  Ele não se relaciona. Passa quase o dia todo cantando essa música. A única pessoa que consegue arrancar alguma coisa dele, é a doutora. Por que só com ela? Não sei. Ninguém sabe, acho que nem ela. Então, temos que descobrir. Será um bom ponto de partida.

Doutor! Quando o senhor quer falar com ele? Amanhã.

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Do Comportamento

BARULHO BOM

Só percebi a presença da música em minha vida depois de perder todas elas semana passada. É sim, mesmo sendo tudo digital é possível perdê-las. Meu HD subiu no telhado, levando com ele às músicas que tinham no pc. Depois de consertado e completamente vazio (ninguém merece!), por alguma artimanha do itunes consegui apagar minhas listas do cell. Em resumo, todas as músicas se foram e o silêncio – algo muito apreciado por mim frequentemente, só porque vivo cercada de barulho, se fez presente. Mas quando ele se instaurou por aqui, de fato, não foi nada legal. Que horrível! Entre desvendar o desaparecimento das músicas e conseguir recuperar algumas, uma semana se passou. Precisou eu lembrar dias depois e buscar nas profundezas da gaveta com bugigangas esquecidas, aquele ipod velhinho e guerreiro para tratar de recuperar meia dúzia de canções nada atuais, porém atemporais e ser salva desse silêncio ensurdecedor. Agora, devidamente musicada, com o problema do cretino itunes resolvido, volto a reclamar do excesso de barulho, como quem reclama do calor, mas odeia chuva, do trânsito mas adora a rua, da noite mas a prefere ao dia e por ai vai. Coisas da vida.

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Da Ficção

ENSAIO

Era um belo dia de verão. O sol brilhava de tal forma, que as folhas das árvores pareciam minúsculos espelhos refletindo toda a luz alaranjada, quente emitida…

– O que? Pode parar! Você não pode começar o ensaio assim!

–  É um treino de escrita criativa, não quero me ater somente à realidade.

–  Você esqueceu a regra básica. Escrever sobre aquilo a sua volta, sobre o que você sabe.

– Isso é bobagem! É uma aula de escrita livre, criativa e assim irei produzir meu texto. Faz o seu que eu faço o meu. Não é porque fazemos essa aula juntos que precisamos escrever igual.

– É uma tarefa coletiva! A maneira que você escreve afeta o modo que eu produzo a minha parte esqueceu? Ou ensaio será escrito de duas maneiras diferentes?

– Ai como você reclama! Que saco essa é a ultima vez que fazemos um trabalho juntos. E dessa vez é pra valer!

– Você disse a mesma coisa, da última vez.

– Cala a boca!

– Então vamos trabalhar ou ficar aqui de conversinha?

Era um belo dia de outono…

– O que? Você tá de sacanagem!

– Estamos no outono. Escrever sobre a realidade…

–  Você tá mesmo de sacanagem!

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Do Comportamento

O PORTAL

Toda casa tem um portal para um mundo desconhecido onde objetos comuns do cotidiano desaparecem? Aqui em casa tem. Brincos, havaianas, livros, talheres, dvd’s desaparecem subitamente sem deixar rastros e sem que ninguém saiba onde estão. Estranhamente, moramos apenas eu e mamãe por aqui, no entanto ela e eu perdemos nossas coisas e não as encontramos nunca mais. Coisas da vida! O portal mágico, com certeza não é tão glamouroso quando o guarda-roupa de Nárnia, porém, segue no transporte firme de nossos pertences. Essa Terra mágica tem ótimo gosto por sinal. Apenas coisas boas desaparecem, logicamente! Mas muito em breve, trataremos de descobrir a localização desse portal e fechá-lo definitivamente. Até lá, é tentar manter cada uma de nós, suas coisas longe do mistério por detrás dos desaparecimentos.

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Das Pessoas, Das Ruas

A COPA DAS COPAS

Era uma vez a copa das copas.

Era uma vez a copa das copas.

A Copa das Copas a partir de agora, para nós brasileiros, terá um gosto amargo.  A Copa 2014, continua sim, sendo a #copadascopas, média de gols altíssima, semifinais com times dignas de uma Copa do Mundo, jogadores inspirados e festa, muita festa. Como se esperava de um evento realizado aqui, na América Latina, um povo de sangue quente e movido a paixões. Paixão essa, que o futebol sabe como poucos esportes despertar. É uma comoção se seu time ganha, uma dor sentida no fundo da alma se a derrota é o caminho.  Nossa paixão nacional, que outrora encantou o mundo por meio de pés mágicos, hoje não brilha mais. Talvez a expressão, ‘não ter mais bobo no futebol’, seja mais real do que nunca, vide a Costa Rica, que fez uma participação linda e lutou, lutou muito, até quando não pode mais, para se classificar.  Mas independente, se há ou não bobos no campo, o que não poderia haver aqui, na nossa casa, era apatia por parte dos jogadores e infelizmente houve. Certo, que a perca de Neymar influenciou, mas não pode ser usada como justificativa para o futebol de várzea apresentado pela seleção. Se o professor não soube mexer, cabia aos jogadores, cada um chamar para si a responsabilidade. Se jogariam por Neymar, pelas crianças, pela pátria, deixaram a desejar no quesito mais básico. Cada jogador da seleção brasileira hoje, esqueceu de jogar para si próprio. Tensão, pressão de estar em casa, se sobrepuseram a camisa, a alegria sempre relacionada ao futebol brasileiro. Uma pena! Seria lindo ver a #copadascopas ser nossa, mas a verdade é que aos trancos e barrancos como a seleção veio ao longo da competição, sombreados pela conquista da Copa América, o time não tinha condições de avançar mais. Futebolisticamente, podemos enumerar os problemas táticos, mas o que importa isso agora? É o coração que sofre e não há estatísticas que diminuam o lamento de uma humilhação como essa. Não jogamos, não estávamos em campo, o amor não estava na chuteira. Foi um jogo de um time só e isso foi a pior das derrotas. A garra, o brilho não entraram em campo, na hora que mais se fazia necessário, já que a bola no pé, há muito tempo não estava por lá. Agora, seja lá qual for o vencedor e será merecido, a sensação de amargura de mais uma vez ter o nosso caneco dado a outra seleção na nossa casa vai permanecer. Tanto se falou do Maracanaço, mudou-se o cenário, mas o fantasma continua a rondar. E para nós cariocas, a Copa das Copas vai passar sem termos a chance de ver a seleção canarinho, mesmo que não cante como antes, jogar no Maraca. É muita sacanagem.

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Do Comportamento

TRINCA DE OURO

A culpa é do solfejo / Foto: Paloma Ornelas

A culpa é do solfejo / Foto: Paloma Ornelas

Dia desses bati um papo com meu professor e ele me perguntou qual o tipo de música eu gostava. Era de se estranhar, nós nunca termos conversado sobre as preferências musicais de cada um, assim, apenas por curiosidade, sem racionalizar a música como fazemos, a fim de entendê-la melhor na aula.  Percebi, que minha resposta padrão é sempre  Beatles, Stevie Wonder, Michael Jackson, artistas bastante consagrados.  De fato, adoro os Beatles e sua discografia me fascina, assim como o groove das músicas do Little Stevie  e MJ. O curioso é que fora eles, não me interesso por um gênero específico ou artista. Gosto de canções de um modo geral. Assim, escuto uma música, se gosto, diferentemente da maioria, não vou atrás de outras canções. Gosto daquela e se por curiosidade procurar outras e não gostar isso com certeza afetará o modo como ouvirei a música que tanto curtia. Não me acho uma pessoa musical. Tenho um péssimo ouvido, que procuro aula após aula melhorar, a respiração e coordenação, elementos primordias para quem escolhe os instrumentos de sopro como eu, me são falhos. Qualquer um e não precisa nem me conhecer, percebe ao longe que sou a pessoa menos coordenada do planeta. Coisas da vida. No entanto, dentre todos os sons captados pelo meu ouvido torto escutou, foi o trompete o que mais me encantou. Enquanto travo a luta diária contra o solfejo, sigo com meus três queridos artistas e à procura de novas músicas. Ahhh gostava da Demi Lovato, mas como quase não escuto mais, acho que ela fica fora da lista. Rá! :)

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Da Ficção

COTIDIANO

Espera, você perdeu o rumo da história. Não era esse o clima da conversa. Eu sei, mas as coisas saíram do controle. Então, para e retoma o caminho original. Você acha? Acho. Vai ser melhor. Olha, quem sabe se eles se encaminharem para uma briga, de repente, isso pode acender o romance. Com brigas? Não, com reconciliações. Está muito no começo para usarmos esse recurso. De qualquer forma, não podemos decidir isso agora. Se queimarmos etapas, no futuro, a trama começa a se repetir. Parece que essa relação está com os dias contados. Só se você quiser. Não! Vou deixar as coisas seguirem. Não pretendo interferir, por hora, tudo se encaminham dentro do previsto.

Quarta-feira de cinzas – Entre o fim de tarde e incio da noite

Para de rir! Não consigo é muito engraçado! Só de pensar já me dá vontade de rir de novo.  Para de rir! Detesto quando você ri da minha cara desse jeito. Que jeito? Rindo de mim.  Boba! Rindo com você, não de você. Mas eu não tô achando graça nenhuma. Vai você sabe que é engraçado. Você dançou como o carinha achando que era eu! Fala sério! Se eu não tivesse te encontrado, você estaria dançando até agora. O cara parecia com você idiota! Comigo? Baixinho daquele jeito! É ruim heim! Não tem graça, estava escuro e se o sujeito fosse um desses loucos, que a gente encontra por aí? Sei lá! De que loucos você tá falando? Não ando com maluco nenhum. Você é péssimo sabia. Por isso, as pessoas não deveriam beber até cair dessa maneira no carnaval. EU NÃO BEBI DE CAIR! Calma, calma! Não precisa gritar. Nossa, como você tá irritante hoje! Fala a verdade. Você tava de porre e não quer admitir. Não tem como não achar graça! Essa é uma dessas histórias que a gente vai contar por aí e rir muito depois. A claro do jeito que você aumenta tudo vai ficar muito mais interessante do que realmente aconteceu. Posso aumentar, mas não invento nada. Aí tá bom. Não quero mais falar sobre isso. Acho que alguém incorporou mesmo o espirito da quarta-feira de cinzas.

(…)

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Da Ficção

VIDAS EM ABERTO

Globo Terrestre / Google.

Um jovem casal se encontra sentado em uma mesa de um café. Assim como o título sugere, suas vidas estão em aberto também para mim. Suas identidades desconheço. A única informação que desponho até o momento é este cenário. Do que falam, se falam sobre algo tão pouco sei.  Enquanto escrevo, algumas ideias se apresentam e aos poucos um ensaio se forma.  Os nomes por hora, não se fazem necessários. No café, um lugar agradável, com mesas ao ar livre, não está cheio. Por opção de ambos, usam uma mesa mais ao fundo. Nas paredes algumas fotos antigas, tanto de pessoas um dia famosas, no entanto, hoje desconhecidas, como belas paisagens. Seria um ambiente mais charmoso, se as outras pessoas ali não estivessem presas em seus computadores e celulares usando a wifi. Ninguém se comunica entre si, mas com outros a quilômetros dali. O casal analógico repara, mas não estranha. A atmosfera se assemelha a um sonho futurista com tintas retrô. Ele quer café e demora a se decidir perdido no variado menu, ela já bebe um chá de aparência amarronzada. Combina com o tom do papel de parede do lugar. A atmosfera ocre, amadeirada é monocromática demais para o gosto de ambos.  De repente, um estalo. Eles decidem sobre o destino de uma viagem. Algum lugar exótico e distante, onde a barreira à língua os assusta e os estimula ao mesmo tempo ou um ponto turístico da moda, onde encontrariam mais brasileiros do que locais.  Pontos são expostos, argumentados sem chegar a nenhum resultado satisfatório. Eles decidem sair. Quando a conta chega comentam sobre os preços $urreai$ praticados na cidade. Sem decidirem o destino da viagem, caminham pelas ruas no bairro tão conhecido em busca de inspirações, uma direção que aponte o caminho a ser escolhido. Nada. Sem pressa, mas não com tempo a perder, decidem esperar no máximo por mais 24 horas e farão uma última tentativa de acordo. Caso contrário, com o globo a girar, o dedo decidirá por eles.

 (…)

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