Da Ficção, Da Natureza

O SOM DA CHUVA – devaneio

Aquele barulho de chuva, que percorria a parede na brecha entre as casas geminadas. O som das gotas, uma após a outra, quando batem na folha seca caída no chão. O chuvisco tilintando na lata de coca-cola vazia esquecida no quintal. Quantos sons a chuva trazia consigo nas memórias. Dançando ao som da chuva, vinham os ventos, em contato com as árvores. Vento e chuva uníssonos embalam o sono dos aflitos, com medo de sua força à noite. Trovões também podem chegar sem a menor cerimônia.  Zum, zum, tac, tac, zum, tac, zum.

É dia, a chuva continua a cair e todos os barulhos ganham reforço visual. As flores estão molhadas, as folhas se dobram com o peso da água. O cinza do dia, ganha contrastes brilhantes com as cores das plantas e seu verde iluminado. Não seriam mais coloridas, se ao invés da chuva, fosse o sol que as banhasse.  Mas o som está lá e segue compondo a melodia criada pelos fenômenos da natureza. Carros passam, alguém grita, tv’s são ligadas, rádios aumentados. O som, cada vez mais abafado, some. Não, não some. Apenas se cala, como se dissesse, para que perder tempo com os que não sabem ouvir.

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Das Pessoas, Do Comportamento

OLHARES PERDIDOS ENCONTRADOS NA RUA

Olhares Perdidos

Olhares Perdidos / Foto: Paloma Ornelas

Certas pessoas são perdidas no mundo. Encontram-se nesse estado de perdição e nele permanecem. O que elas fazem? Elas estão perdidas, mas o que fazem para se encontrar? Será que desejam ser encontradas?  Alguns têm funções sociais, intelectuais, financeiras. Trabalham, estudam, se divertem. Nascem, crescem, se multiplicam, tudo certinho. Seguem como manda o figurino, mas e as outras pessoas? As perdidas, as que não sabem o que querem? O que elas fazem? O que fazem os que vagueiam, os que não vivem, apenas se movem por ai com seus olhares fantasmagóricos, vagos, perdidos no curso da vida, manipulados pelo senhor tempo. É estranho observar o olhar perdido dessas pessoas, mas talvez, penso. Será, que para o outro, meu olhar de encontro ao seu, não surja tão perdido quanto o seu próprio? Não seria um reflexo do que vejo no outro, o que ele vê no meu olhar? Quem sabe, o que se passa com os desconhecidos encontrados pelas ruas. Quanta diferença do ser presente, para o ser perdido.  O olhar não é igual. Há algo de inquisitivo nos olhares perdidos. Quem são? O que fazem aqui? Perdidos sem nunca serem encontrados. Encontrados, mas por quem? Por eles mesmos, pelos outros, por sicrano, por beltrano? Por quem? Quanta coisa pode ser revelada somente com o olhar. Não é para eles e nem por eles que o mundo gira. Não fazem parte de lugar nenhum, sequer fazem parte de seu tempo, de suas vidas. Tudo o que sabem desse pequeno momento de consciência, dessa epifania existencial, não os fazem menos perdidos. Que loucura! Confundir o que era confuso, é possível tal coisa? Talvez sim, talvez não. Quem sabe? Mas de novo, enquanto observo os olhares perdidos, me pergunto. Quem sabe o que se passa com esses desconhecidos encontrados pela rua.

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Formiga

Formiga / Foto: Paloma Ornelas

Da Natureza

FORMIGA

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Da Ficção

A FITA PRATEADA

O brilho da fita prateada na janela me acordou. Já é dia? Mas como? Parece que o tempo é engolido ao meu redor. Cansaço. Tenho a impressão de que me deitei agorinha mesmo. A fita prateada continua a tremular na janela, banhada pelos primeiros raios de sol da manhã. Deve ter sido o vento que a carregou para cá. Não fui eu quem pus essa fita ali. Ou fui? Assim como o tempo, minha memória também foi engolida. Minha cabeça está latejando. O que eu bebi ontem ou com quem? Droga! No meu bolso, encontrei um pedaço de papel com números. Não são um telefone, são números ao acaso. O que são esses números? Talvez, seja a pista para saber o que houve na noite passada. Podem ser números da sorte de alguém, uma combinação importante perdida ou confiada a mim. Quem poderá saber? Estranho como essa fita prateada me da paz. Parece que toda a paz do mundo está concentrada no seu  tremular, brilho. É isso! Ficarei aqui até que a fita para de brilhar e enquanto o vento dançar com ela, presa na grade da janela, toda a paz estará a salvo. A paz foi engolida como tempo, a memória e partes da minha vida. Tudo agora é um terrível borrão. Fragmentos de histórias, pedaços de vida perdidos dia após dia. Engolidos junto com o tempo e a memória. Gostaria de ficar aqui para sempre observando essa fita prateada. Por hora é isso que irei fazer. Por hora, isso me basta.

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Em Um Lugar Qualquer / Foto: Paloma Ornelas

Da Natureza, Das Ruas

EM UM LUGAR QUALQUER

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Da Criação

TESTE DE APP

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Das Pessoas, Das Ruas

HOMEM-ARANHA FERROVIÁRIO

Depois dos surfistas de trem, hoje fui apresentada a uma nova categoria. O Homem-Aranha ferroviário. Em meio, a chatice sem fim de esperar o trem dominical, (que não chegava nunca, claro!). Do nada, um super-herói descamisado e às avessas saltou de uma pilastra à lá Peter Parker, descendo por um cano de mais de 10 metros de altura, sem medo algum. Sua luta era manjada. O ato de não pagar a passagem, praticado pelos mais corajosos desbravadores do concreto, dignos dos melhores atletas de parkour. Cigarro atrás da orelha, isqueiro na mão, procurava um anel, desconhecido por todos e em seu delírio, vislumbrado apenas por ele.

Seria dele o anel? Daria a alguém especial, ganhara de alguém querido? Como saber? E esse pequeno mistério, deixa apenas a história mais divertida. É mais um caso solto, como tantos outros, que acontecem todos os dias e animam a monotonia do transporte público carioca. Me pergunto quantos lugares mais o Homem-Aranha já escalou ou quais ainda irá escalar. Sorte a ele. Que não se machuque e tão pouco caia em cima de alguém.

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Azul da Cor do Mar / Foto: Paloma Ornelas

Da Natureza

AZUL DA COR DO MAR

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Da Ficção

O TIGRE DE PAPEL

Eu consigo fazer um tigre de papel. Como assim um tigre de papel. Desenhar, você quer dizer? Não, um tigre de papel. Origami? Não. Como então? Montar um tigre de papel papelão. Como uma maquete. Sim. Uma maquete. Como você aprendeu a fazer esse tigre. Vi na internet. Sim, mas para quê? Curiosidade apenas. Bom, pelo menos você pode dizer que sabe construir algo. Eu sei construir várias outras coisas. Como o que? Pensamentos, ideias… Ideias e pensamentos são a mesma coisa! Não, não são! Além disso, não são coisas que se constroem. Uma ideia te leva a criar algo, um pensamento pode ser muito mais amplo e profundo. Você constrói pensamentos e ideias sim. Não gosto do ritmo dessa conversa. Por quê? Porque não entendo o que você diz. Quer voltar ao tigre de papel? Não, você já contou tudo o que tinha pra dizer sobre isso. Não contei não! Ué, mas o que tem mais para saber. Bom, eu crio histórias para esse tigre de papel papelão. Certo, todo mundo pode criar histórias sobre um estúpido tigre de papel. Papel papelão! Que seja! É só uma estúpida maquete. Aposto que você não sabe fazer uma estúpida maquete. E daí! Não é exatamente uma coisa dificílima de fazer. Você fala de um jeito engraçado às vezes. O que quer dizer? Nada, só fiz um comentário. Então, porque você não guarda seus comentários para você mesmo! Certo. O que foi? Por que ficou calado? Estou guardando meus comentários para mim mesmo. [Gargalhadas], sendo assim, acho que acabou nosso conversa. Acho que sim. Então tchau! Tchau. Uma criança  se despede de seu amigo imaginário e cai no sono, para explorar o mundo dos sonhos na companhia de seu tigre de papel papelão.

* Treino de escrita livre.

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