Das Ruas

Cenas cotidianas

Era apenas mais uma Kombi velha. Foi de lá que percebia-se a primeira passada quando outros carros cruzavam em disparada a rua. Como num raio ele os seguia de maneira raivosa, voraz. Depois retomava a seu estado de repouso, uma inercia gostosa de olhos fechados, mas ainda assim alerta. Diante do cenário clichê cercado de poeira, como nos bares do cinema spaghetti ele ainda não se movia. O tilintar enjoado de um desses joguinhos ordinários para celular sonorizam a área. A espreita de mantinha enquanto a oficina não abria as portas tardiamente pelo horário de expediente. Sol a pino, um calor desleal daqueles que não traziam nenhuma lembrança boa de um verão feliz. Mais poeira na cara. Atenção redobrada, um carro de aproxima, é hora. Ele segue em disparada a latir, sendo mais alto que o infame joguinho, que as reclamações pela espera do mecânico, pelo bebê a chorar.

O cão lati e corre e pula e vive, cumprindo sua prazerosa rotina no calor invernal em tempos de previsões tão estranhas. Ele é assim não há quem possa mudá-lo e sinceramente tomara que não o façam. Sei que ele é Rex, Jolie, Barbudo e tantos outros nomes que pouco o definem. Não sei de onde veio e sei que por hora é aqui debaixo daquela Kombi velha que ele está.

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Da Ficção

Manhã, tarde, noite

Só queria entrar na sua cabeça. Mergulhar nos seus pensamentos mais profundos e descobrir todos os seus segredos. Sei que há muitos deles ai, alguns dos quais se você partilhar talvez me assuste, mas a minha curiosidade é tão maior que a repulsa. Me conte, me conte! Quero gritar. Penso, mas nada falo. Ao invés disso sorrio e em silêncio passamos o resto da manhã olhando pela janela entre aberta, ouvindo os malditos passarinhos que nos acordaram há pouco.

Sou um hibrido de todas as coisas.  O que isso quer dizer? Quase posso sentir a pergunta ecoando ao meu redor. Existe tanto de tudo dentro de mim, mais do que posso lidar, mais do que compreender. Só há essa pressão de todos os lados. Pressão que nem sei de onde vem ou sei e finjo não saber. Vem da alma, de dentro dessa desconhecida imensidão existente dentro de mim. Acho que cheguei ao final sem ter começado. Comecei e não percebi. Não sei. De verdade não sei mais para onde ir.

Quando a lâmina na serra corta as tiras de madeira, quando as fagulhas da solda faíscam ao lado. Quando parafusos penduram arte. Quem percebe essas coisas hoje em dia? Quem as percebia no passado? Vi um casal correndo no parque no final da tarde. Eles cortavam o vento, desafiando as leis da natureza, tão senhores de si. Convictos dos ganhos dos exercícios em seus corpos esculturais como prova. Era aquela energia, aquele brilho que emanava deles que eu buscava. Onde foi parar a vivacidade tão comum alguns anos antes? Foi ele, o tempo. Ele destruiu as expectativas, os sonhos e deixou o que? Um vazio. Não, deixou incertezas, lacunas.

Alguém perguntou se tinha um isqueiro. Como é estranho quando alguém pergunta isso hoje em dia. Os fumantes foram exilados para fora dos bares, dos restaurantes. Já era tarde da noite e a rua fervia. Dentro e fora do show, fugi do barulho buscando o frio ar da madrugada de inverno. Era frio e cortante. Eu gostava. Não tinha fogo, indiquei uma lanchonete que poderia ter. Era fim de festa, fim de música e multidão. Era começo de um novo dia com os primeiros raios de sol refletidos nas janelas do ônibus parcialmente cheio.

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Do Cinema

Olhos da justiça vs. O segredo dos seus olhos

Olhos_Justiça

Paixões não mudam, são persistentes. Os olhos não mentem, eles falam para aqueles que os observam. Ao assistir Olhos da Justiça, versão insossa para filme argentino O Segredo dos Seus Olhos capitaneado pelo muso Ricardo Darín a sensação de perda desse avassalador sentimento é evidente. A história é mecânica e um balde de água fria para os espectadores mais apaixonados.

Se Campanella dirige um suspense pincelado constantemente com tintas afetivas, essa nova roupagem made US perde e muito sua principalmente característica. Há um suspense insipido qualquer, assim como tantos outros, que não dizem nada e apenas justificam a necessidade de assistir um produto em língua inglesa.

A premissa é a história de um amor correspondido, porém impossibilitado por uma série de convenções, barreiras de classe que é quebrado por um crime hediondo e a partir dai, uma trama instigante é apresentada com final acachapante e surpreendente. O trunfo em grande parte está no afinadíssimo elenco. Darín e Soledad faíscam paixão desde O mesmo amor, a mesma chuva. Conseguem transmitir uma vivacidade única nos olhares, coisa que nem de longe parece existir entre Chiwetel e Nicole. É tão triste o fato de Chiwetel ter esse olhar tão poderoso, impactante e não conseguir transmitir aqui um ínfimo do que se costuma ver em seus melhores trabalhos. E o que dizer de Julia fazendo uma escada, cara de paisagem,  numa atuação opaca, sem o melhor brilho, quando no original é seu personagem que aflora amor, paixão e provoca essa busca por respostas, esse senso de justiça em Benjamin quer dizer Ray.  Tudo é automático e inexpressivo.

Não à toa, quando as primeiras notícias sobre essa adaptação saíram fiquei descrente com o possível resultado. Não só por ser um filme tão querido, mas também por receio de toda a mítica envolvendo o roteiro original fosse perdida e não deu outra. Talvez, para os que não tenham assistido ao filme original possam simpatizar com essa trama, no entanto, nem como ‘original’ ela soa interessante. É mais do mesmo na cara dura. Foi decepcionante e bem esperado. Para quê? Por quê mexer nessa história maravilha. Francamente e o pior é ver o Campanella produzindo isso. Vergonha alheia total.

* Esse texto foi produzido assim, de bate e pronto, como fruto da minha paixão pelos segredos dos seus olhos.

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Da Tv

#LesRevenants season finale

Les Revenants - Divulgação

Okay Les Revenants acabou e pelo jeito é de vez. Como foi anunciado em um cartaz do Sundance TV, os ‘bizarros zumbis franceses estão de volta’. Quanta bobagem! Para lá de qualquer clichê imaginável, não há nada de bizarro nessa história, ou melhor, na forma como ela é construída.  Após toda comoção sobre esse último episódio vamos ao que interessa. Sem dúvida é uma das séries mais instigantes dos últimos tempos. A maneira como o programa abraça de forma muito peculiar – em especial na segunda temporada – o sobrenatural gradativamente só desperta no espectador uma enorme curiosidade sobre o que virá em seguida. A história sempre fica no limite da tensão, bebendo em uma espécie de terror contido e o entrelace das tramas envolvendo a rotina do vale que é um personagem à parte torna tudo muito interessante.

Ao menos, o que se percebe em linhas gerais e muitas reclamações nas redes é um desconforto em relação à subjetividade do final. Algumas questões não foram respondidas fato e isso pode sim gerar um desapontamento, contudo a possibilidade de múltiplas interpretações para cada personagem enriqueceu de tal forma a trama, que passado o season finale ainda é possível ficar pensando sobre isso. E não é assim com os grandes projetos? Gerar questionamentos em quem assiste? Um final fechado, depois de todo o caminho percorrido pelo enredo seria limitado demais e sem dúvida os roteiristas não passariam uma rasteira dessas no público. A temática mística favorece e francamente nada mais sem graça do que fornecer as respostas quando justamente à ausência dela torna tudo muito mais interessante.

Se Les Revenants vai ou não ter uma terceira temporada ninguém sabe. Devido aos longos hiatos é pouco provável que se tenha, por uma questão física mesmo. Os atores infantis crescem. Pode até ser que haja a possibilidade de uma nova leva de personagens voltando à cidadezinha bucólica, mas não teria o mesmo charme. Especulações a parte, o que se sabe de concreto é os que voltaram e depois foram já deixaram saudades.

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Da Ficção

Corta

É quase o fim da manhã. O único raio de sol iluminando este quarto escuro acaba de se extinguir. É assim que sei sobre a passagem de tempo. Primitivo, mas funciona. As batidas na porta me despertam de pronto. São fortes e constantes. É tarde, não quero falar com ninguém. Na minha mente o sono ainda esta por aqui. Não se despediu por completo. Preciso reencontrá-lo. // corte Estamos na era do vídeo. Ninguém mais lê. Todos leem os mesmos livros. Os vejo estampados nas redes sociais da vida. Falam com tamanha seriedade sobre livros tão superficiais, nos quais nem mesmo os autores se levaram a sério.  Li Fitzgerald e ele é fantástico ao descrever o tédio na vida dos endinheirados. Tudo devidamente regado a  champanhe e festas divertidíssimas Quanto mais ricos mais infelizes, solitários, incompreendidos. Li Hemingway e seu desprezo pela guerra, mas sua profunda conexão com a alma dos guerreiros, com a nobreza de caráter em batalhar a boa luta. Sociedade anônima há vida por ser descoberta. Parágrafos ao acaso , sem sentido enquanto a hora não passa. // corte Tive um bloqueio criativo e continuo à procura das palavras, mesmo estando na era do vídeo. // corte.

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Da Tv

#Rectify season finale

Cena de Rectify - (Divulgação)

Em dado momento lá no primeiro episódio fica muito evidente que todos os personagens estão quebrados em Rectify e não necessariamente almejam uma pronta recuperação. Existem muitos esqueletos nos armários. De forma contemplativa o roteiro cria situações onde todos precisam lidar com seus questionamentos mais profundos, mas é somente na terceira temporada, a mais madura da série que isso é melhor esquadrinhado. Basicamente Daniel está de fato livre, após um acordo entre ele a justiça. Em condicional, muito em breve será banido de Paulie a cidadezinha sulista e tacanha de sua infância.

Mantendo uma narrativa particular o trunfo da série é jogar com passagem do tempo gradativamente. Se Daniel Holden (Aden Young) enxerga o mundo de forma deslocada tentando se equilibrar entre a modernidade dos dias de hoje e cenário que deixou no passado, a trama segue o mesmo ritmo. Minimalista nos acontecimentos, tudo prima pela economia de gestos. O simples cotidiano esconde a fragilidade das pessoas de modo muito preciso. É quase tangível que a chegada daquele parente distante, meio suspenso, presente no imaginário coletivo, aflore reações extremadas de várias pessoas e até mesmo aquelas que viviam à margem começam um processo de declínio, descoberta, quando levados ao limite.

Rectify é uma série considerada pelos atuais padrões lenta, mas não funcionaria caso fosse de outra maneira. É necessário abraçar a trama e mergulhar naquele universo, ter a curiosidade despertada ao observar as estranhezas nas relações interpessoais, toda sua complexidade.  É interessante perceber que mesmo mantendo um aspecto melancólico há sim um fundo de esperança, há também ambiguidade. Fugindo a regra maniqueísta, as imperfeições de cada personagem dão profundidade, conferem peso a essas relações que nem sempre mentem um caminho linear.

 Em suma, a série é linda, muito bem escrita e merece toda nossa atenção. Imperdível mesmo.

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Das Pessoas

Nostalgia

As estranhezas das sessões de volta ao passado que as fotografias antigas proporcionam são infinitas. Servem para recordar, pregar peças na memória, exercitá-la e também descartar. Essas ficam, essas vão. Determinadas pessoas permanecem outras não. Dependendo do quão velhas, a inevitável realidade se apresenta. Quem já partiu? E a saudade que elas deixam. Pequenas histórias são repartidas antes de você existir. De um tempo tão longínquo que mesmo os que viveram já não lembram mais os detalhes. Algumas são leves, engraçadas, aventurescas e no fundo todo mundo sabe exageradas, enfeitadas pelos pensamentos mais distantes. Ninguém se importa.

Velhos dramas.  As comparações são sempre motivos de espanto. As rugas desenhadas na pele com o passar dos anos assustam, geram insegurança, gargalhadas. Mas é assim que funciona. É parte do rito nostálgico que fotos são associadas. Hoje ao click de uma tela, celular à postos dezenas de selfies, caras e bocas, instafood, pets, #instatudo, momentos são capturados e excluídos na velocidade da luz. O papel pode ser obsoleto e ter seu lugar cativo no cotidiano dos mais velhos, de certo em meio a risinhos de canto de boca, os mais jovens não entendem. Quando eles ficarem mais velhos o presente, ridicularizado passado será o futuro vazio de amanhã. Que sessão de fotos a modernidade aguarda. E a velha instamatic, filme 126? Nada.

Na era das exposições frenéticas nada se salva ao passo de uma troca de cartão de memória, nuvem, apps. Novos tempos, novas adaptações e seguimos todos dançando conforme a música tocada sem pensarmos muito sobre o assunto. Oras, mas penso. Foi a sessão nostalgia de ontem. As estranhezas sem fim das sessões de fotos, não cabem apenas durante o ato. Elas perduram por muito tempo até quem sabe uma próxima vez, onde mais fotos e pessoas serão descartadas e outras tantas entraram na ciranda.

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Do Comportamento

Fragmentos

É possível ver as gotas de chuva escorrem pelo velho muro branco. Ele não era assim, foi pintado por um desconhecido recentemente. A copa quase vazia da antiga árvore amortece esse processo, mas ainda assim é possível vê-las seguindo seu curso em queda livre. Folhinhas espalhadas pelo chão criam uma atmosfera desolada ao lugar. Não é isso que dias chuvosos remetem para alguns? Desolação. Transeuntes seguem rumo ao ponto de ônibus, entram em seus carros ou caminham vagarosamente com seus outrora burocráticos guarda-chuvas, hoje eles conferem cor aos dias chuvosos. Nada é tão cinza como antes. Nem mesmo os bucólicos dias de inverno.

Não sei você, mas eu sempre procuro as cores do dia. São variações de luzes ou talvez humores. Percepções de que hoje o dia será laranja (acolhedor), azul (tranquilo), amarelo (alegre), são essas as comuns definições ou as inventei? Hoje o dia é cinza. Que cor é cinza? Uma mistura banal do preto e branco perdida entre os dois opostos. Cinza é discrição, elegância, para um dia é frio, tédio, para os friorentos o desespero, os solares a impaciência. Para mim cinza é só cinza.  E a trilha dos dias chuvosos para os presos no engarrafamento? De qualquer forma o amarelo desponta junto com primeiros raios de sol. Tímidos, mas acolhedores.

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Da Tv

#TrueDetective season finale

True Detective Season 2.

E essa segunda temporada de #TrueDetective pregou uma peça no espectador. Nunca foi sobre um cadáver encontrado sem olhos dentro de um carro, mas sim sobre as pessoas e sua falta de decência, sua ganância, mesquinhez. Um misto dos sentimentos mais baixos dos seres humanos e o que cada um faz para sobreviver em um mundo cada vez mais melancólico, desonesto, sujeito a todo tipo de corrupção.

Os grandes planos com suas rodovias em movimento serviam de metáfora para mudanças, as transformações dos protagonistas ao longo dos episódios. A série acerta em cheio ao mostrar as mazelas de cada indivíduo sem qualquer maquiagem e dessa vez trouxe para um universo masculino rodeado de poder, a sobrevivência do feminino.  Muito se falou de uma possível queda em relação à primeira temporada. Não é o caso. Para quem transpõe as linhas de raciocínio elaboradas de Rusty Cohle anteriormente, essa segunda empreitada de roteirista e criador da série Nic Pizzolatto garante momentos preciosos em rascunhar a essência do comportamento em uma trama construída através da mais alta percepção sobre o ser humano.  Excelente e que venha uma terceira!

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Das Pessoas

De Ornelas filha para Ornelas pai

Hoje é dia dos pais. Não comemoro essa data faz um par de anos. Não vejo razão desde que meu pai se foi. Vi uma porção de posts sobre como os pais ensinaram muitas coisas aos filhos. Não aprendi nada disso com o meu. Naturalmente, criamos uma identificação que foi aparecendo ao longo dos anos e somente muitos anos depois dele falecer outras se tornaram muito evidentes. Eu sou igual ao meu pai. Para e bem e para o mal. Ele não me ensinou a gostar de futebol, nem ir ao cinema ou gostar de determinado tipo de música. Em suma, me ensinou duas coisas. Seja forte e seja decidida. Resolva o que precisar sempre da melhor forma possível. Às vezes consigo, outras não. O que não aprendi com meu pai, mas herdei dele naturalmente. Ele era ótimo cozinheiro, parece que a cozinha gosta de mim, ele me ensinou a beber, não ficar bêbada. Essa eu falho sempre. Desculpa velho ainda tô aprendendo.

Meu pai era solar. Cativava todos ao seu redor. Ele era uma daquelas pessoas raras que poderiam dizer ser a alma da festa com toda justiça. Ele nunca se vangloriava. Não era preciso. Eu sou introspectiva, contida. Somos opostos nesses desnecessários poucos aspectos. Na essência somos o mesmo tipo de pessoa. Nunca vi meu pai como herói. Ele era um anti-herói se muito. Quem o conheceu sabe do que eu falo. O último dos justiceiros de uma realidade que ficou para trás.

Meu pai era um mundo a ser descoberto. Nunca tive a chance de vê-lo envelhecer, ele nunca me viu amadurecer. Entre esses dois pontos, sobrou apenas lembranças que vão se perdendo com o tempo. Meu pai foi embora cedo demais, mas não sei se o mundo de hoje o agradaria. Ele não conheceu ou não entendia a internet, sinceramente, não consigo lembrar e agora estou eu aqui, no vasto mundo da web falando sobre ele. Falando mais sobre ele do que propriamente disse a ele. Eu não tive tempo para isso.  Ele me deixou um nome e uma bicicleta, mais esses dois ensinamentos e me deixou saudade. Muita saudade. Mas eu não choro por meu pai. Ele era festa e a tristeza simplesmente não pertencia a ele e de forma alguma ele gostaria de ser lembrado dessa forma.

Beijo Ornelas pai.

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